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Direito de Família

Pensão alimentícia: como o valor é definido e quando pode mudar

Escritório Araujo & Macedo · 10 min de leitura · Publicado em

A primeira pergunta de quase toda conversa sobre pensão é a mesma: "quanto é?". E a resposta surpreende quem esperava um número: não existe percentual fixo em lei. Nem 30%, nem 20%, nem um terço. Esses números circulam porque aparecem com frequência nas decisões, não porque algum artigo de lei os tenha escrito.

O que a lei estabelece é um critério, e o critério é uma proporção. Entender essa proporção muda tudo na prática: é ela que define o valor no começo, e é a mudança dela que autoriza rever o valor depois. Este texto explica como o cálculo é feito, sobre quais rendimentos a pensão incide, em que situações dá para pedir aumento ou redução e o que acontece quando o pagamento para.

A lei não fixa percentual: fixa uma proporção

O art. 1.694, § 1º, do Código Civil é o dispositivo central. Ele diz, com todas as letras, que os alimentos "devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada". São duas grandezas, e nenhuma delas é um percentual: de um lado, o que a criança precisa; do outro, o que quem paga tem.

Código Civil, art. 1.694, § 1º: "Os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada."

O art. 1.695 acrescenta um terceiro ponto que muita gente esquece, e que costuma ser decisivo quando a renda de quem paga é baixa: os alimentos são devidos quando aquele de quem se reclamam "pode fornecê-los, sem desfalque do necessário ao seu sustento". Ou seja, o valor não pode inviabilizar a sobrevivência de quem paga. Por isso se fala em trinômio, e não em binômio: necessidade de quem recebe, possibilidade de quem paga e preservação do mínimo de quem paga.

Essa é a razão pela qual dois processos com filhos da mesma idade terminam com valores muito diferentes. Não há incoerência: a conta é individual.

O que entra na conta de cada lado

Na prática forense, montar o pedido é montar prova dessas duas grandezas. Quanto mais concreta a demonstração, menos espaço sobra para o juiz arbitrar no escuro.

Do lado da necessidadeDo lado da possibilidade
Mensalidade escolar, material e transporteContracheque, carteira de trabalho ou declaração de renda
Plano de saúde, medicamentos de uso contínuo, terapiasMovimentação bancária e cartões, quando há renda informal
Alimentação, vestuário e parcela das despesas da casaPatrimônio: veículos, imóveis, participação em empresa
Atividades, creche e cuidador, quando háOutros filhos e outros encargos alimentares já existentes
Idade e condição de saúde da criançaPadrão de vida aparente: viagens, consumo, redes sociais

Sobre a renda informal, vale um aviso prático: a ausência de contracheque não encerra a discussão. Quem trabalha por conta própria tem rastro financeiro, e esse rastro pode ser buscado no processo. A estratégia de "não ter nada no nome" costuma ser menos eficaz do que parece.

Do outro lado, também vale a honestidade: planilha inflada derruba credibilidade. Se o pedido lista despesa que a família nunca teve, o juiz desconfia do conjunto, inclusive da parte verdadeira.

Sobre quais rendimentos a pensão incide

Quando a pensão é fixada em percentual sobre a renda, aparece a dúvida seguinte: incide sobre o décimo terceiro? Sobre o adicional de férias? Esse ponto não é opinião, já está decidido em precedente qualificado.

No Tema Repetitivo 192, julgado pela Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça em 25 de novembro de 2009 (REsp 1.106.654/RJ), com trânsito em julgado em 5 de março de 2010, ficou firmada a tese de que a pensão alimentícia incide sobre o décimo terceiro salário e sobre o terço constitucional de férias — as chamadas gratificação natalina e gratificação de férias.

Tese do Tema 192 do STJ: "A pensão alimentícia incide sobre o décimo terceiro salário e o terço constitucional de férias, também conhecidos, respectivamente, por gratificação natalina e gratificação de férias."

Há uma ressalva registrada nas anotações do próprio tribunal sobre esse tema: a incidência ocorre salvo se excluída por cláusula expressa. Isso significa que um acordo pode afastar o 13º e o terço de férias da base — mas só se disser isso de forma clara. Acórdo omisso não exclui; a regra geral volta a valer.

Para outras verbas — participação nos lucros, bonificação, FGTS — o cenário é diferente e exige honestidade na informação: não existe tese vinculante do STJ em vigor sobre a inclusão dessas verbas na base de cálculo. Duas controvérsias que tramitavam no tribunal sobre o assunto — uma sobre participação nos lucros e resultados, outra sobre penhora de FGTS para pagamento de alimentos — foram canceladas, em 2023 e em 2021, sem chegar a virar tema repetitivo. Hoje, portanto, esses pontos se resolvem caso a caso, conforme a redação do título e as circunstâncias. Quem afirmar que existe decisão definitiva a respeito está informando errado.

Desconto em folha e o limite dos 50%

Quando quem paga é servidor, militar, empregado com carteira assinada, diretor ou gerente de empresa, o art. 529 do Código de Processo Civil permite que o desconto seja feito direto na folha de pagamento. O juízo oficia o empregador, que passa a descontar a partir da primeira remuneração posterior ao recebimento do ofício, sob pena de crime de desobediência.

O § 3º desse artigo traz o número mais citado e mais mal citado do tema. Ele diz que o débito em execução pode ser descontado de forma parcelada, "contanto que, somado à parcela devida, não ultrapasse cinquenta por cento de seus ganhos líquidos".

Atenção ao que esse limite é e ao que ele não é: os 50% do art. 529, § 3º, do CPC são o teto da soma entre a pensão do mês e o parcelamento do atrasado, dentro da execução. Não é teto para a fixação do valor mensal da pensão, e não autoriza ninguém a pedir "metade do salário" como regra.

Pensão em dinheiro ou pagamento direto das despesas

A pensão não precisa ser necessariamente um depósito mensal. O art. 1.701 do Código Civil autoriza que a obrigação seja cumprida de outra forma — hospedagem e sustento, por exemplo — e o parágrafo único deixa ao juiz a fixação da forma de cumprimento quando as circunstâncias exigirem.

É o fundamento das pensões mistas, muito comuns em acordo: uma parte em dinheiro na conta e outra em pagamento direto da escola, do plano de saúde ou do aluguel. Funciona bem quando os valores estão descritos no título. Funciona mal quando o acordo diz apenas "o pai arcará com as despesas escolares", sem dizer quais, porque cada mês abre uma discussão nova.

De quando começa a contar

Logo ao despachar o pedido, o juiz fixa alimentos provisórios, salvo se quem pede declarar expressamente que não precisa deles. É o que determina o art. 4º da Lei 5.478/1968, a Lei de Alimentos. Esses provisórios valem até a decisão final, inclusive durante os recursos (art. 13, § 3º).

E há uma regra de data que decide muito dinheiro: o art. 13, § 2º, da mesma lei estabelece que, "em qualquer caso, os alimentos fixados retroagem à data da citação". Quando os alimentos são pedidos junto com investigação de paternidade, a Súmula 277 do STJ diz o mesmo: julgada procedente a investigação, os alimentos são devidos a partir da citação.

Consequência prática: demora no processo não apaga o período. Ela acumula.

Quando o valor pode mudar

Aqui está a parte que mais gera dúvida, e a resposta da lei é generosa: a decisão sobre alimentos nunca fecha de vez.

Lei 5.478/1968, art. 15: "A decisão judicial sobre alimentos não transita em julgado e pode a qualquer tempo ser revista, em face da modificação da situação financeira dos interessados."

O art. 1.699 do Código Civil diz a mesma coisa pelo outro lado: se, fixados os alimentos, sobrevier mudança na situação financeira de quem os supre ou de quem os recebe, o interessado pode reclamar ao juiz exoneração, redução ou majoração do encargo.

O que autoriza o pedido não é o tempo decorrido nem o arrependimento com o acordo. É mudança de fato em um dos dois lados da proporção, e essa mudança precisa ser provada.

Dois cuidados que separam o pedido que funciona do pedido que fracassa. O primeiro: desemprego recente, sozinho, nem sempre basta — o que convence é a demonstração de que a capacidade de pagamento caiu e permanece baixa. O segundo: até a decisão da revisão, o valor antigo continua devido. Parar de pagar por conta própria, confiando que o juiz vai reduzir depois, produz dívida e risco de prisão.

A revisão retroage — e não devolve o que foi pago

A Súmula 621 do STJ, aprovada pela Segunda Seção em 12 de dezembro de 2018, resolve dois pontos de uma vez: "Os efeitos da sentença que reduz, majora ou exonera o alimentante do pagamento retroagem à data da citação, vedadas a compensação e a repetibilidade."

Traduzindo. Se o valor é aumentado, a diferença é devida desde a citação da ação de revisão, não desde a sentença. Se é reduzido, a redução também vale desde a citação — mas o que já foi pago a mais não volta e não é descontado das prestações futuras. Alimentícia paga é alimentícia consumida; a lei não a trata como crédito.

Maioridade não corta a pensão automaticamente

O dia do décimo oitavo aniversário não extingue a obrigação por si. A Súmula 358 do STJ, de 13 de agosto de 2008, é expressa: "O cancelamento de pensão alimentícia de filho que atingiu a maioridade está sujeito à decisão judicial, mediante contraditório, ainda que nos próprios autos."

Quer dizer que quem paga precisa pedir, e o filho precisa ter a chance de responder — normalmente alegando que ainda estuda e não tem renda própria. O desconto em folha só cessa quando há decisão. Mandar e-mail ao RH avisando que o filho fez 18 anos não encerra nada e gera débito.

Quando os avós podem ser chamados

A obrigação alimentária é extensiva aos ascendentes, recaindo nos mais próximos em grau (art. 1.696 do Código Civil), e o art. 1.698 permite chamar os de grau imediato quando quem deve em primeiro lugar não consegue suportar todo o encargo. Mas há limite claro, e ele está sumulado.

Súmula 596 do STJ: "A obrigação alimentar dos avós tem natureza complementar e subsidiária, somente se configurando no caso de impossibilidade total ou parcial de seu cumprimento pelos pais."

Complementar e subsidiária são as duas palavras que importam. Não se escolhe acionar o avó porque ele tem mais dinheiro ou porque é mais fácil de localizar: é preciso demonstrar antes que o pai ou a mãe não pode, total ou parcialmente, cumprir a obrigação.

O que acontece quando o pagamento para

A execução de alimentos é um dos procedimentos mais rápidos do processo civil brasileiro, e isso é proposital. O art. 528 do CPC manda intimar pessoalmente quem deve para, em três dias, pagar, provar que pagou ou justificar por que não pôde pagar.

Se nada disso acontece, duas coisas se somam. O título é levado a protesto (§ 1º) e o juiz decreta a prisão pelo prazo de um a três meses (§ 3º), em regime fechado e separado dos presos comuns (§ 4º). Cumprir a pena não perdoa a dívida (§ 5º); pagar suspende a ordem de prisão (§ 6º).

A justificativa aceita é estreita. O § 2º exige a comprovação de fato que gere impossibilidade absoluta de pagar. Dificuldade financeira genérica não entra nessa porta.

PontoO que diz a lei
Prazo para pagar após a intimação3 dias (CPC, art. 528, caput)
Prazo da prisão civil1 a 3 meses (CPC, art. 528, § 3º)
Débito que autoriza prisãoAté as 3 prestações anteriores ao ajuizamento da execução e as que vencerem no curso do processo (CPC, art. 528, § 7º; Súmula 309 do STJ)
Rito de penhoraPode ser escolhido pelo credor, e nele não cabe prisão (CPC, art. 528, § 8º)
Onde executarTambém no juízo do domicílio de quem recebe (CPC, art. 528, § 9º)

Sobre o débito que autoriza a prisão, há um detalhe histórico que ainda circula errado. A Súmula 309 do STJ foi alterada pela Segunda Seção em 22 de março de 2006: a redação anterior falava em três prestações anteriores "à citação", e a redação vigente fala em três prestações anteriores "ao ajuizamento da execução". Textos desatualizados ainda reproduzem a redação velha.

O restante do atrasado não fica perdido: ele se cobra pelo rito de expropriação — penhora de bens, de conta, de veículo. Só não gera prisão. Vale lembrar, por fim, que a prisão por dívida de alimentos é exceção constitucional expressa: o art. 5º, LXVII, da Constituição ressalva do veto à prisão civil justamente "o responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia".

Cinco erros que aparecem sempre

  1. Acreditar no percentual de 30%. Não está em lei nenhuma. Pedir ou aceitar um número sem montar a prova da necessidade e da possibilidade é entregar a decisão ao arbitramento.
  2. Confundir os 50% do art. 529 com teto da pensão. Aquele limite é de execução de débito, não de fixação.
  3. Parar de pagar porque pediu revisão. O valor antigo vale até a decisão, e o atrasado abre porta para prisão.
  4. Cortar o desconto na maioridade sem decisão. A Súmula 358 exige contraditório.
  5. Pagar por fora, sem comprovante. Depósito em conta de terceiro, dinheiro em espécie e Pix sem identificação costumam não ser reconhecidos na execução.

Vale ainda registrar uma regra de fundo: o art. 1.707 do Código Civil proíbe a renúncia ao direito a alimentos e torna o crédito insuscetível de cessão, compensação ou penhora. Acordo em que o filho "renuncia" à pensão tem esse obstáculo legal pela frente.

Se você precisa fixar, revisar ou cobrar pensão, o caminho começa com documento: comprovante de renda, lista de despesas e o título que fixou o valor atual, se houver. Com esse material em mãos, dá para dizer com segurança o que é realista pedir. A equipe de família do escritório atende em Feira de Santana e pode analisar o seu caso.

Perguntas frequentes

A pensão alimentícia é sempre 30% do salário?

Não. Nenhum artigo de lei fixa percentual. O art. 1.694, § 1º, do Código Civil manda fixar os alimentos na proporção das necessidades de quem recebe e dos recursos de quem paga, e o art. 1.695 exige que o pagamento não desfalque o necessário ao sustento de quem paga. Os percentuais que circulam são prática forense, não regra legal — por isso casos parecidos terminam com valores diferentes.

A pensão incide sobre o 13º salário e as férias?

Sim, como regra. No Tema Repetitivo 192, julgado pela Segunda Seção do STJ em 25/11/2009 (REsp 1.106.654/RJ), foi firmada a tese de que a pensão incide sobre o décimo terceiro salário e sobre o terço constitucional de férias. As anotações do próprio tribunal nesse tema registram a ressalva: salvo se a incidência for excluída por cláusula expressa. Acordo omisso não exclui.

Perdi o emprego. Posso simplesmente pagar menos?

Não por conta própria. A redução depende de pedido ao juiz, com base no art. 1.699 do Código Civil e no art. 15 da Lei 5.478/1968, e exige prova da mudança na capacidade de pagamento. Até a decisão, o valor antigo continua devido, e o que deixar de ser pago entra como débito — com risco de protesto e de prisão civil, nos termos do art. 528 do CPC.

Se o juiz reduzir a pensão, eu recebo de volta o que paguei a mais?

Não. A Súmula 621 do STJ determina que os efeitos da sentença que reduz, majora ou exonera retroagem à data da citação, vedadas a compensação e a repetibilidade. Ou seja: a redução vale desde a citação, mas o valor já pago não é devolvido nem descontado das prestações futuras.

A pensão acaba quando o filho completa 18 anos?

Não automaticamente. A Súmula 358 do STJ exige decisão judicial, com contraditório, para cancelar a pensão do filho que atingiu a maioridade — ainda que o pedido seja feito nos próprios autos. Até essa decisão, a obrigação segue, e o desconto em folha não pode ser interrompido por iniciativa de quem paga.

É verdade que dá prisão por não pagar pensão?

Sim, e é a única hipótese de prisão por dívida que sobrevive no direito brasileiro — o art. 5º, LXVII, da Constituição a ressalva expressamente. Pelo art. 528 do CPC, quem é intimado tem três dias para pagar, provar que pagou ou justificar impossibilidade absoluta; sem isso, cabe protesto e prisão de um a três meses. A prisão alcança até as três prestações anteriores ao ajuizamento da execução e as que vencerem no curso do processo (art. 528, § 7º, e Súmula 309 do STJ). O restante do atrasado se cobra por penhora.

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a análise individual do caso por um advogado.